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Revista nº 9 - Saberes e Práticas de Cidadania para a Democracia (out 2019)

 

Revista nº 9 - Saberes e Práticas de Cidadania para a Democracia

 

Editorial

 

Podemos afirmar que o Número 9 da Revista Sinergias - Diálogos Educativos para a Transformação Social que “tem em mãos” é um número com o seu quê de excecional. De facto - pela primeira vez em nove edições - o presente número emerge de um conjunto de sugestões partilhadas em modo brainstorming pelos elementos do Grupo do Conhecimento daquilo a que vamos chamando de Comunidade Sinergias ED, uma comunidade de pessoas ligadas a Instituições de Ensino Superior e a Organizações da Sociedade Civil que refletem e trabalham em conjunto tendo por centro a ideia de Educação para a Transformação Social, cuja génese e desenvolvimento tem sido feita a partir do projeto Sinergias ED. Face à conjuntura do momento e dos assuntos que estavam, então, na ordem do dia (nomeadamente, a antevisão das Eleições Europeias 2019, o fenómeno ineludível da desinformação, a premência de todos nós, em exercício da sua cidadania, acionarmos mecanismos protetores dos sistemas democráticos em que vivemos, entre outros), chegou-se naturalmente ao tema agregador que viria a nortear o presente número da Revista Sinergias: Saberes e Práticas de Cidadania para a Democracia. Este número foi ganhando corpo e personalidade, a partir da identificação de autores/as e atores fundamentais nesta área e do convite para que dessem o seu contributo especializado para melhor refletirmos sobre estes assuntos que continuam (e continuarão) a estar na ordem do dia.

O que pode, então, esperar deste Número 9 da Revista Sinergias? Um conjunto de artigos, práticas, debates, entrevistas, publicações recentes, entre outros, dedicados a conhecimentos, práticas e aprendizagens essenciais para o exercício da Democracia e da Cidadania. Tal engloba aspetos como os conhecimentos e as práticas de participação cidadã que são essenciais em democracia, com a tónica nos processos educativos; os cuidados a ter no acesso e na apropriação da informação que circula livremente pela esfera pública; a premência de se pensar criticamente sobre tal informação, bem como de tomar decisões informadas e de agir reflexivamente; a importância das construções colaborativas para operar a transformação social.

Na secção dos Artigos, o presente número estreia-se com o texto Sinalizando rumo a futuros descoloniais: Observações pedagógicas e de pesquisa de campo, da autoria de um coletivo que inclui Vanessa Andreotti, Sharon Stein, Dino Siwek, Camilla Cardoso, Tereza Caikova, Ubiracy Pataxó, Benicio Pitaguary, Rosa Pitaguary, Ninawa Huni Kui e Elwood Jimmy. Neste artigo, os autores e autoras procedem a uma autoanálise das aprendizagens resultantes do trabalho colaborativo por si realizado no sentido da descolonização em diversos contextos educativos. Para tal, apresentam uma abordagem pedagógica que pondera interpretações e dimensões múltiplas de descolonização, com o fito de fomentar a antevisão de oportunidades alternativas de coexistência.

Segue-se o artigo de Luis Sanabria Zaniboni, La era del algoritmo: La desinformación como herramienta política, que se dedica à análise do fenómeno da desinformação no quadro mais amplo de pós-verdade. Tal fenómeno não é, afinal, recente, mas antes duradouro na sua presença na nossa História enquanto Humanidade. Neste texto, o autor aborda, para além da desinformação e da pós-verdade, temas como a propaganda política, a informatização das comunicações, Big Data, e os recursos e processos políticos que deverão ser fortalecidos de modo a assegurar a cidadania em sociedades democráticas.

Após este enquadramento mais abrangente de desinformação na era da pós-verdade, o artigo de Amanda Franco, Ana Sofia Sousa e Rui Marques Vieira, How to become an informed citizen in the (dis)information society? Recommendations and strategies to mobilize one’s critical thinking, partilha uma diversidade de recomendações e de estratégias que devem ser utilizadas pelos indivíduos-cidadãos, de modo a questionarem a informação em massa na qual se veem envoltos e a prevenirem situações de sequestro por parte da desinformação, a qual pode potenciar decisões de vida irrefletidas e nocivas – para si e para outros. Aqui, o pensamento crítico é essencial para se exercer uma cidadania informada na res publica.

A secção das Práticas inicia-se com o Programa de formación en democracia y ciudadanía para la garantía de los derechos humanos, de Ángel Martín Peccis. Neste texto, o autor descreve processos e experiências decorrentes do Programa Regional de Educação em Democracia e Cidadania para a Garantia dos Direitos Humanos, um programa de formação e capacitação promovido pela Organização de Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura, que serve de apoio aos governos nacionais que pretendam, através de projetos regionais e da constituição-consolidação de alianças entre diversos atores sociais (e.g., instituições educativas, entidades, governamentais, empresas privadas, etc.), construir redes comunitárias democráticas de paz, participação e transparência.

De seguida, Reclaim Europe!: Um projeto pela participação da sociedade civil numa Europa construída em conjunto, é apresentado por Christine Auer. Neste texto, dá-se a conhecer o projeto Reclaim Europe!, iniciado em 2018 pela Fundação Friedrich Ebert em Portugal, e desenvolvido em conjunto com parceiros da sociedade civil, com o objetivo de fomentar o debate - entre todas e todos os que quiserem estar envolvidos, não apenas as “elites” - em torno da miríade de formatos possíveis de participação na construção da Europa. Com efeito, este projeto apela à necessidade de se realizarem movimentos de reivindicação de uma Europa que é democrática, que é espaço de encontro, debate e aprendizagem, que é de todos e todas.

Para fechar, Niels Dekker partilha Technology and interactive methodologies in citizenship education at ProDemos, um texto alusivo ao trabalho realizado pela ProDemos. Esta organização não-governamental na Holanda oferece um programa educativo ancorado em metodologias interativas para desenvolver o conhecimento da população sobre os sistemas que governam a Democracia e o Estado de Direito, e para demonstrar o papel que os cidadãos e cidadãs devem desempenhar para exercer influência política a nível regional, nacional e Europeu. Para além de promover atividades para estudantes, a ProDemos apoia também docentes em termos de formação, materiais educativos e implementação de programas nas escolas.

Na secção de Debate, Sandra Oliveira coloca-nos uma série de perguntas a partir desta primeira: Tecnologia e cidadania: Oportunidade ou apocalipse?Neste texto examina-se qual a influência da tecnologia na sociedade, isto é, se esta servirá de facilitação ou polarização da mesma mediante o envolvimento ou afastamento dos indivíduos-cidadãos. Partindo de conceitos centrais como a Educação para a Cidadania Global e a Literacia para os Média, a autora enfatiza o papel da Educação e da transformação social para permeabilizar o sistema político às vozes dos e das cidadãs. Com efeito, urge formar pessoas facilitadoras de uma educação para a cidadania que seja transformativa, inclusiva e global, nutrida por valores democráticos, direitos humanos, uma consciência crítica e uma ética de relacionamento.

Ainda numa linha de questionamento(s), o coletivo formado por Andrea de Buen, Claudia Escobar, Miguel Escobar, Valeria Gil, Cora Jiménez, Noemí Mejía, Fernanda Navarro, Mayra Silva e Merary Vieyra propõe El Brasil de Paulo Freire, ¿Sigue vigente la pedagogía del oprimido?. Os autores abordam a Pedagogia do Oprimido e as relações de opressão aí denunciadas por Paulo Freire como mote para a atualização de uma Pedagogia da Libertação. A análise das relações de opressão é percebida como promotora de um processo de consciencialização, pelo que se realiza essa análise – sobre o Brasil de hoje – com o objetivo de abrir a janela emancipatória que representam os espaços educativos, para ajudar a quebrar a “cultura do silêncio” e o pensamento dualista.

Dando continuidade a Paulo Freire, Tânia Ramalho encerra a secção de Debate com uma carta imaginada como se escrita pelo próprio pedagogo, intitulada: Educação para a cidadania global e planetária: Revendo a contribuição de Paulo Freire.Nesta carta, a autora procede a uma análise dos contributos dados por Paulo Freire aos princípios de base que regem hoje a Educação para a Cidadania Global e Planetária, particularmente à dimensão de pedagogia que é celebrada pela UNESCO. Com efeito, aquela advoga a premência de uma pedagogia que seja crítica, ativa e transformadora, dimensões de base do pensamento e sentimento freiriano.

Na secção Diálogos, encontramos duas conversas. A primeira, com Miguel de Barros, sociólogo, investigador e ativista, que nos convida a observar a História e o presente da Guiné-Bissau, no seu percurso de construção de uma sociedade democrática de “maior intensidade”. A segunda, com Fergus Bell, jornalista e fundador do serviço de consultoria Dig Deeper Media, que nos revela a sua experiência enquanto jornalista e formador na área da verificação da veracidade das notícias e promotor de colaborações a larga-escala para solucionar desafios jornalísticos.

O Documento-chave que destacamos nesta edição é o Reference Framework of Competences for Democratic Culture, publicado pelo Conselho da Europa. Elizaveta Bagrintseva e Caroline Gebara, do European Wergeland Centre (EWC), introduzem-nos o documento e partilham connosco um muito interessante comentário tendo por base a prática do EWC e a forma como têm introduzido este documento nos seus projetos.

Com base nas inquietações apresentadas anteriormente, reconhece-se que urge a importância de educar para os média. Como Recensão Crítica, Alfredo Dias apresenta-nos o livro “Literacia para os média e cidadania global – caixa de ferramentas” que reúne conceitos, provocações, dinâmicas com metodologias experienciais e participativas que se adequam a contextos e grupos específicos. Esta caixa de ferramenta torna-se essencial para quem deseja alcançar uma comunicação ética e transformadora.

Segue-se a secção das Publicações recentes, na qual quatro publicações recentes, todas elas relacionadas com os temas norteadores deste número, são apresentadas: Global Education Digest 2018 (2019); Global Education Guidelines – Concepts and methodologies on global education for educators and policy makers (2019); Alternativas: Registos e reflexões (2019); e Construir Alternativas – Propostas pedagógicas para a reflexão e a mobilização para a transformação social ( 2018).

O presente número da Revista Sinergias encerra com a habitual secção dedicada às Teses, na qual se partilha um conjunto de seis Teses de Mestrado com temas relacionados com a Educação para a Cidadania Global e com a Educação para o Desenvolvimento.

O Conselho Editorial do presente número da Revista Sinergias ambiciona que as mesmas preocupações com o presente-futuro da Democracia e que os mesmos questionamentos incitados pelos fenómenos de desinformação, pós-verdade e ressurgimento de movimentos políticos autoritários que deram origem a este número acicatem o leitor, impelindo-o a desenvolver os seus conhecimentos e a exercitar as suas práticas de cidadania informada, crítica, participativa, transformadora. Segundo Timothy Snyder 1 (2017), a História não se repete; instrui. Para tal, cada indivíduo-cidadão e cidadã deverá assumir o seu direito e dever de pensar de forma crítica e independente, exprimindo posicionamentos fundamentados em factos e apoiando instituições sociais e mecanismos de exercício e defesa da Democracia.

 

 


[1] Snyder, T. (2017). On tyranny – Twenty lessons for the twentieth century. London, UK: The Bodley Head.

 

 


Ficha Técnica

Nome da Revista: “Sinergias – diálogos educativos para a transformação social”.

Propriedade: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (CEAUP) e Fundação Gonçalo da Silveira (FGS), no âmbito do projeto Sinergias ED: consolidar o diálogo entre investigação e ação na Educação para o Desenvolvimento em Portugal, cofinanciado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, apoiado pela Reitoria da Universidade do Porto.

Periodicidade: Semestral.

Grafismo e Paginação: Megaklique e Cláudia Pereira.

Edição: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (CEAUP) e Fundação Gonçalo da Silveira (FGS).

Conselho Científico: Alejandra Boni (INGENIO-CSIC, Univ. Politècnica de València.ES), Alexandre Furtado (Fundação para a Educação e Desenvolvimento.GB), Ana Isabel Madeira (Inst. Educação-Univ. de Lisboa.PT), Antónia Barreto (Escola Superior de Educação e Ciências Sociais-Inst. Politécnico de Leiria.PT), Cristina Pires Ferreira (Univ. de Cabo Verde.CV), Douglas Bourn (Inst. of Education-Univ. of London.UK), Elizabeth Challinor (Centro em Rede de Invest. em Antropologia-Univ. do Minho.PT), Filipe Martins (Centro Estudos de Desenv. Humano da Univers. Católica Portuguesa; Rede Inducar.PT), Júlio Santos (Centro de Estudos Africanos da Univ. Porto.PT), Karen Pashby (Univ. of Manchester.UK), Liam Wegimont (Global Education Network Europe), Luísa Teotónio Pereira (Global Education Network Europe), Manuela Mesa (Centro de Educación e Investigación para la Paz.ES), Maria Helena Salema (Inst. Educação-Univ. de Lisboa.PT), Maria José Casa-Nova (Inst. Educação-Univ. do Minho.PT), María Luz Ortega (Univ. Loyola Andalucia.ES), Matt Baillie Smith (Northumbria Univ.UK), Nuno da Silva Gonçalves (Pontificia Univ. Gregoriana.IT), Teresa Toldy (Univ. Fernando Pessoa.PT), Vanessa de Oliveira Andreotti (Univ. of British Columbia.CAN).

Conselho Editorial:  Amanda Franco, Joana Costa, Jorge Cardoso, La Salete Coelho e Sara Borges.

Na origem deste número estiveram envolvidos ainda Alfredo Gomes Dias, João Leitão, Mário Montez, Miguel Filipe Silva, Rui da Silva e Sandra Oliveira.

Avaliadores do presente número: Filipe Santos (Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Instituto Politécnico de Leiria), Francisco Verdes (Instituto Complutense de Estudios Internacionales), Júlio Santos (Centro de Estudos Africanos da Univ. Porto), Miguel Filipe Silva (Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto e Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Universidade Nova de Lisboa), Oscar Jara (CEAAL- Consejo de Educación Popular de América Latina y el Caribe).

Traduções, revisão gráfica e de textos: Amanda Franco, Cláudia Pereira, Jacinta Martins, Joana Costa, Jorge Cardoso, La Salete Coelho e Sara Borges.

Informações de depósito legal e issn: ISSN 2183-4687

Revista com arbitragem científica: os artigos são da responsabilidade dos seus autores.

 

 


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